Segunda-feira, 14 de Junho de 2010

Factos: Um olhar que pára a velocidade | DNOTICIAS.PT


Para além da cidade prevista e desenhada, há uma cidade que se olha com todos os sentidos e todas as artes. Como a poesia, as cidades e o território também se sobrevoam de afectos e de olhares que param a velocidade da geografia alterada.


"O que interessa é olhar com os olhos de muitos anos para não perder esse olhar sensível à matéria, à tradição, aos sistemas construtivos de toda uma vida."

"Por vezes, basta olhar de uma outra maneira para ver melhor", diz Paulo David sobre um novo olhar sobre o território em geral e as cidades em particular

"Não nos interessa o poeta, o arquitecto, ou o urbanista. Interessa-nos a obra poética como descoberta daquilo a que se chega sem tentar e sem vontade de fazer poesia". A frase é do arquitecto Arturo Franco. Madrileno e um dos participantes numa conversa de esquina sobre a cidade que decorreu, um destes dias, no Funchal. O encontro, promovido pelo arquitecto Paulo David, juntou, numa sala a abarrotar, figuras ligadas não só à arquitectura, mas também à geologia, à geografia, à literatura, à arte e à música. Porque as cidades, como explica Paulo David, não são apenas traços, mas sim uma contaminação de sons, de cheiros, de cores. A cidade prevista e desenhada surge mais tarde. Muito mais tarde.
O que interessou ao grupo que se reuniu para este olhar a cidade foi a forma como cada um sente esse território que também é de afectos, de tradição e de cultura, muito antes de ser esse traço e essa intervenção que cria aquilo a que se chama urbanismo.
A cidade é aquilo a que se chega sem vontade de fazer poesia, mesmo que se queira, como fez Diana Pimentel, professora universitária, ensaísta e outra das intervenientes no encontro, criar um roteiro poético como quem desenha um mapa que define os passos e orienta os sentidos. Porque, afinal, tal como acontece com a poesia, talvez a melhor forma de contemplar as cidades seja de helicóptero, sobrevoando as palavras de poetas que debruçaram o olhar sobre esse território concreto onde a vida acontece.
E porque as cidades também são vida e pessoas e imperfeições e recantos, a revista 'Fundamentos', do Colégio de Arquitectos de Madrid, chefiada por Arturo Franco, poderá vir a dedicar um número ao Funchal. Precisamente porque não se interessa pelas grandes obras, mas sim pelos pequenos recantos. É uma revista diferente, que olha a arquitectura para além do traço, da perfeição, dos projectos. Como explica Arturo Franco, é uma revista de arquitectura com compromisso social. Um compromisso que não é activismo, nem provocação, mas que revela uma sensibilidade face ao homem e à natureza. "Não é para provocar acções, mas sim para entender como as pessoas pensam, como vivem, com o que sofrem, o que desfrutam".
Neste olhar amplo cabe tudo. E também cabe a arquitectura que é tudo: um simples guarda-chuva, uma rua, um vestido, um saco de dormir...
Referindo-se à iniciativa que decorreu no Funchal, disse que o olhar sobre esta cidade será sempre cheio de todas as coisas que foram faladas no encontro 'Vamos falar de cidade'. Das pedras de João Baptista, das árvores de Raimundo Quintal, dos animais de Manuel Biscoito. A ideia é descobrir e recuperar valores para a arquitectura que se estão a perder, não só em termos urbanísticos, mas tantos outros valores. "A nossa revista reage contra toda a frivolidade, as cores, o superficial o epidérmico. Por isso, vamos à China e não vamos a Xangai, nem vamos a Pequim. Vamos para descobrir e desvendar outras coisas, para desvendar questões".
Arturo Franco viu a cidade do Funchal com o primeiro olhar de quem chega e fica pouco mais de dois dias. Mas revelou que esse olhar está contaminado por um outro anterior, por aquilo que Paulo David lhe falou sobre esta cidade no Atlântico. E Paulo David falhou-lhe de uma paisagem, de um território, de uma certa tradição que se está a transformar. E quando aqui se fala em perda, Arturo Franco diz que nem lhe interessa as habituais críticas que se fazem a propósito de uma cidade turística que cresce desenfreadamente.
"Não nos interessa, desde logo, o turismo, não nos interesse o espectáculo, não nos interessa o aparente. Interessa-nos os pequenos recantos da ilha, a forma de trabalhar o pavimento, onde se mistura a engenharia e a arte. Interessa-nos a autenticidade". Até porque o resto, desgraçadamente, é o que acontece em todos os locais turísticos. O que interessa é recuperar outros valores, e olhar com os olhos de muitos anos, para não perder esse olhar sensível à matéria, à tradição, aos sistemas construtivos de toda uma vida. E tudo isto deve ser feito de um ponto de vista contemporâneo. Arturo Franco diz que este olhar primordial nada tem que ver com classicismo, nem com a defesa de que tudo permaneça ancorado no tempo. O necessário é um certo respeito em relação ao passado, mas sempre com um olhar no futuro.
a minha cidade são todas E se foi Paulo David que transportou esse primeiro olhar do Funchal até Arturo Franco. Interessa saber que olhar é esse. Citando Sisa Vieira, o arquitecto diz "que a minha cidade são todas". É esse encanto que encontra no Funchal, onde os caminhos de autenticidade se cruzam com um pouco de todas as outras cidades.
E este caminho comum faz-se de um percurso de mistério que as próprias cidades introduzem na descoberta, na vivência, no produto humano que é a malha urbana.
Nesta equação cabe também a ideia de arquitectura que, mais uma vez, Paulo David partilha com Arturo Franco. Uma arquitectura sem arquitecto, porque "a cidade histórica é uma cidade sem arquitecto, que todos andam exaustivamente a defender e com a qual todos se identificam" "Gostamos das ruas antigas e muitas delas não têm arquitectos. A cidade prevista, a cidade desenhada aparece muito mais tarde. A cidade para mim pode ser marcada não só por esses espaços calculados e planeados, mas por um encontro, por uma mescla e uma contaminação de edifícios, de pessoas, de cheiros, de cores".
Paulo David diz mesmo que, cada vez mais, a cidade de hoje deixou de estar configurada entre muros. A velocidade, as infraestruturas que foram surgindo fizeram mudar o conceito de cidade para o conceito de urbano.
O conceito alargou-se e o que hoje temos é a cidade continuada, que é precisamente aquilo que está a acontecer no território regional. Por exemplo, temos já alguma dificuldade em decifrar onde termina o Funchal. Esta percepção leva a um reposicionamento, à necessidade de usar "uns binóculos para reenquadrar a paisagem".
Paulo David defende, no entanto, que esta mudança, este reposicionamento, este olhar que reenquadra a paisagem não deve ser "um mau luto daquilo que perdemos". Pelo contrário, o que há a fazer é uma análise contemporânea sobre aquilo que se está a verificar nos territórios. E sobre esta perspectiva a Região Autónoma é um caso único, pelas velocidades introduzidas numa geografia que é, pela sua essência, de tempos lentos.
"A observação e a contemplação é de tempos muito longos e o que hoje se passa no território é uma introdução de velocidade. E introduz-se a velocidade com as infraestruturas que surgiram por um desejo intenso e moderno de conexão", explica. Mas é precisamente por isto que considera o território da Madeira "extremamente apaixonante, porque ainda permite uma relação idílica com a paisagem, mas simultaneamente uma paisagem já transformada pela aceleração na geografia".
Recorda, a propósito, que antes, no tempo da infância de muitos de nós, usava-se a expressão vamos ao campo. "Mas se hoje disser isso ao meu filho, ele não sabe do que estou a falar. Nenhuma criança sabe". Não sabem simplesmente porque se perdeu essa noção. Quando se diz campo remetemos o nosso ideal para uma paisagem agrícola e rural. Mas até essas paisagens não são estáveis e têm sofrido muitas alterações. Hoje temos de conciliar um terreno agrícola com uma via-rápida por cima. "Esta imagem não é uma imagem que convocamos como identidade. Daí que tenhamos de procurar uns óculos para redefinir"
O segredo é saber como se compagina essa lentidão do olhar com essa rapidez e alteração geográfica.
Paulo David diz que tem tentado responder a isso com a arquitectura que desenvolve. Refere o exemplo da Casa das Mudas, que procura ser um contratempo, um ponto de paragem.
"Na minha infância a ida para o campo justificava-se pela paragem. Hoje em dia, quando se atravessa o território regional, não existem paragens. Há uma ida a 120 à hora, mas aquilo que eu construí como território de paisagem foi a 40 à hora ou a 20 à hora, que era a velocidade do carro do meu pai. Era um percurso serpenteado por toda a paisagem, com paragem nos miradouros, que, só por eles, justificavam a viagem".
Este foi um percurso que se perdeu nessa possibilidade de viagem a 120 à hora.
A questão que se coloca nessa perda e nessa velocidade é a de como vamos responder à tradição com um território alterado a uma grande velocidade. Com uma realidade "na qual se passou de um sub-desenvolvimento para um hiper-desenvolvimento num curto espaço de tempo, sem nunca termos uma espécie de 'mind the gap'". O que existiu foi um salto, uma passagem repentina.
Paulo David entende que este salto era inevitável, mas traz também novos desafios. O desafio é voltar a centrar o conhecimento na observação. E o desafio da arquitectura é criar esses espaços de visão num percurso que é feito a 120 à hora. Porque o que hoje acontece "é uma espécie de viagem de submarino, onde de vez em quando se vem à superfície e se torna depois a mergulhar". A Casa das Mudas procura contrapor precisamente esta realidade de submarino. Paulo David diz que se fala muito da Casa das Mudas como espaço de arte, mas além dessa vertente, que é sem dúvida importante, aquela estrutura que criou interessa-o também, e essencialmente, como percurso numa paisagem. Curiosamente existem já muitas pessoas que usam aquele Centro de Arte como mirante. "Era isso que nós queríamos, ou seja, que por si só o edifício justificasse uma viagem e justificasse uma paragem. Até poderia ser uma forma de entrar e convocar outras formas de contemplação. Mas essa contemplação far-se-ia de forma organizada como centro de arte, e de forma expontânea como mirante e paragem".
Paulo David diz mesmo que, na actualidade, um dos temas mais entusiasmantes é esta nova realidade de aceleração, que não surge apenas na paisagem, mas também a outros níveis, e que introduz uma outra identidade que ainda não sabemos identificar. E é esta identidade célere que tem a necessidade de criar paragens para que o nós seja repensado.
Foi isso que tentou fazer quando realizou recentemente o primeiro encontro multidisciplinar para pensar a cidade. Um encontro que quer repetir e que pretende ser um auxílio no entendimento do território. "No fundo, o que tentei fazer neste encontro, para se discutir a cidade, foi convocar, de um só fôlego e de uma forma abrangente, pessoas que estudam essa mesma cidade. É que, por vezes, basta olhar de uma outra maneira para ver melhor".

Uma sala cheia para a cidade

Vamos falar de cidade O desafio foi lançado pelo arquitecto Paulo David a um grupo de pessoas de áreas tão díspares, como a música, a arte, a geologia e a arquitectura. A iniciativa foi marginal à Feira do Livro, foi pouco divulgada, mas conseguiu uma sala cheia de gente, que, no fim de uma tarde de sábado, ficou a ouvir sobre a sua cidade.
E valeu a pena porque se abordou de forma apaixonada a vulnerabilidade do território através das "topografias esculpidas" , e porque se percebeu, por exemplo, que o turismo não se reduz ao movimento do aeroporto ou mesmo aos preços de balcão dos hotéis ou às taxas de ocupação ou à promoção , mas sim porque "a Cidade e o Turismo" deve investir nas "atmosferas" do estar na Ilha. Porque a climatização da estrutura verde da Cidade conta toda a história de uma cidade de génese portuária, da emigração, da colonização.
Foram vários olhares que usaram como matéria o nosso território explanando o nosso estado psicológico, o lado idílico, o transformado em estado lento que sempre acrescentou valor, ou o acelerado que ainda não sabemos identificar mas que cria "lugares comuns", mas já com vida.


Sábado, 12 de Junho de 2010

Posições na cama... Ver em silêncio...


publicado por... liliana_12 às 22:12
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Quinta-feira, 27 de Maio de 2010

Governo acaba com oito medidas de apoio ao emprego

por Lusa<input ... >Ontem<input ... >
Governo acaba com oito medidas de apoio ao emprego




O Governo anunciou hoje a retirada de oito medidas da Iniciativa Emprego 2010 e anti-crise, entre as quais o programa Qualificação Emprego e o prolongamento por seis meses do subsídio social de desemprego.
De acordo com fonte do Ministério do Trabalho, o Governo irá igualmente retirar o apoio de redução do prazo de garantia para atribuição do subsídio de desemprego, a majoração do montante do subsídio de desemprego aos desempregados com filhos a cargo e a eliminação do pagamento adicional de abono de família dos terceiro ao quinto escalões.
Ao nível das medidas de manutenção do emprego, o Governo deixa cair, além dos programas Qualificação Emprego, o incentivo de redução em três pontos percentuais das contribuições para a segurança social a cargo do empregador, em micro e pequenas empresas, para trabalhadores com mais de 45 anos.
Mexe ainda nos incentivos à inserção de jovens no mercado de trabalho, terminando com o programa de requalificação de 5.000 jovens licenciados em áreas de baixa empregabilidade de forma a facilitar a sua adequada inserção no mercado de trabalho.
O reforço da linha de crédito específica e bonificada, tendo em vista apoiar a criação de empresas por parte de desempregados chega também ao fim, de acordo com aquilo que foi anunciado aos parceiros em reunião de concertação social.
Estas medidas estão hoje a ser discutidas em concertação social.

publicado por... liliana_12 às 09:17
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Aos dois anos fuma 40 cigarros por dia

Na Indonésia, uma criança de dois anos é viciada em tabaco e fuma em média 40 cigarros por dia. Veja o vídeo.
Ardi Rizal começou a fumar pela mão do pai, Mohammed, que aos 18 meses lhe deu um cigarro. A criança pesa 25 quilos e desloca-se num camião de brincar, porque não é capaz de correr normalmente como as outras crianças.
Diana, a mãe, de 26 anos, chora ao reconhecer a dependência do filho. “Ele é totalmente viciado. Se não consegue cigarros, fica zangado, grita e bate com a própria cabeça contra as paredes. Diz-me que se não fumar se sente tonto e enjoado”, contou a mãe da criança.
O pai, Mohammed, de 30 anos, não vê mal no hábito do filho. "Pareece-me bastante saudável. Não vejo qual é o problema", disse, em declarações citadas no tablóide britânico "The Sun".
Ardi fuma exclusivamente uma única marca sendo que os seus  pais gastam por dia a volta de 4,50 euros em tabaco.




publicado por... liliana_12 às 09:15
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Terça-feira, 25 de Maio de 2010

O meu bebé às 12 semanas...


publicado por... liliana_12 às 19:04
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Segunda-feira, 10 de Maio de 2010

BENFICA 2009/2010 FUNCHAL

Antes já resservado...


Estes vídeos mostram alguns dos momentos vividos no Funchal no dia de ontem após o término do jogo dos campeões...



publicado por... liliana_12 às 13:53
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Domingo, 21 de Fevereiro de 2010

TEMPORAL NA MADEIRA

Por esta altura muitos são os testemunhos em imagem de muitas perdas... muitos acidentes... muito desastre, na minha ilha querida... vou postar algumas imagens que recolhi pelo telmóvel não são muitas e tive de editar algumas para ficar mais perceptível... sou apenas mais uma que ao passar nos locais captei algumas imagens para guardar e decidi partilhar no meu blog com todos... é uma calamidade o que se vive neste momento na Madeira... só mesmo vendo pessoalmente nem por fotos é possível descrever tamanha tragédia...



Quinta-feira, 7 de Janeiro de 2010

Chorão Ramalho no Funchal…

in Netmadeira
Arquitectura

Bruno Martins  |  26 de Outubro de 2009

Chorão Ramalho no Funchal

Edífício da Caixa de Previdência do Funchal, Arq. Chorão Ramalho (Fotografia: Bruno Martins)

(…) Depois do Funchal ter passado por dois grandes ciclos económicos; o do açúcar e o do vinho, a cidade assume uma nova referência turística internacional. (…) A cidade modernizava-se, apoiando-se no “Plano Geral de Melhoramento do Funchal”, do arquitecto Ventura Terra, elaborado em 1915; Rasgava-se a cidade com amplas Praças e Avenidas, Parques, Jardins e Bairros; embelezava-se com estátuas e edifícios da autoria de criadores de renome, tais como: Francisco Franco, Anjos Teixeira e Lagoa Henriques na escultura, Raul Lino, Edmundo Tavares, Óscar Niemeyer e Chorão Ramalho, na arquitectura.

J. G. Faria da Costa; “Estudo de Remodelação da Zona Marginal da Cidade do Funchal”, 1 de Agosto de 1945, Câmara Municipal do Funchal, cota 801, processo n.º 37.

Quem passa, muitas vezes não se apercebe. Talvez porque sempre esteve lá, ou talvez porque olhamos mas não vemos. Mas podemos habitar uma cidade uma vida inteira, discorrendo a sua história viva feita de praças, ruas, jardins e edifícios e nunca nos apercebermos da riqueza que nos rodeia. A tendência generalizada vai ao encontro da valorização da novidade feita de modismos e artificialismos. E no entanto, vivemos numa cidade que é rica na sua história, e marcada desde sempre por obras da maior valia, criadas por grandes autores como foram os casos enumeradas no texto de abertura. De todos, é incontornável falar de Chorão Ramalho, pela obra vasta que tem no Funchal, e pela importância e significado que ela representa para a cidade.

Nascido em 1914, no Fundão, e falecido em 2001, conclui o seu curso na Escola de Belas Artes do Porto em 1947, iniciando a actividade um pouco antes do primeiro congresso nacional de arquitectura, cujo resultado tem um impacto significativa na arquitectura moderna portuguesa que se viria a seguir.

Para escrever sobre Chorão Ramalho e a sua significativa obra no Funchal, é necessário recuar 50 anos, para a altura em que os modelos nacionalistas ainda imperavam na arquitectura. Contrariando esta linguagem vinculada politicamente ao Estado Novo, Chorão Ramalho desenha com liberdade, dando grande atenção aos aspectos funcionais, mas também formais, afirmando uma arquitectura depurada, que recusa o ornamento, o qual é entendido como artifício desnecessário. Esta atitude é suportada por uma seriedade ética e profissional irrepreensível, e um conhecimento das questões técnicas, de programa e de funcionamento.

O rigor no seu trabalho, o detalhe cuidado, a consistência de toda a sua obra elegem-no como um dos grandes arquitectos do seu tempo, e elevam a cidade do Funchal que enriquece o seu património através da obra que o arquitecto aqui executou.

Apesar de ter trabalhado sempre com programas diversificados, o seu trabalho fica marcado por um conjunto de valores que são comuns em toda a sua obra, e que a cidade do Funchal pode testemunhar através dos inúmeros edifícios que ficam para sempre, como a Assembleia Regional da Madeira, a Central Térmica do Funchal (mais conhecida como “Casa da Luz”) ou o conjunto da Caixa de Previdência do Funchal.

Esta ultima obra, composta por serviços de saúde e administrativos, e também habitação, desenvolve-se ao longo de uma torre de 14 pisos que assenta numa plataforma que marca uma transição suave com a malha envolvente.

Este edifício interessa particularmente, não só pelo seu valor enquanto conjunto arquitectónico, mas também pela discussão que a construção em altura ainda suscita. Não deixa de ser curioso lembrar que há 50 anos já se executassem edifícios que continuam sendo os mais altos que a cidade do Funchal tem para oferecer, e que hoje esta questão continue a ser tão polémica - sinal também do nosso conservadorismo relativamente a uma solução que foi utilizada sem complexos por Chorão Ramalho, nesta mesma cidade, há 5 décadas atrás.

Por aqui se percebe que a modernidade não se encontra no tempo mas na mentalidade. E Chorão Ramalho representa o melhor que estes momentos têm para oferecer: a obra que nos deixa – intemporal mas com vista para o futuro – é ainda hoje um símbolo de modernidade na cidade do Funchal.

Bruno Martins

Bruno Martins

Nasceu em Lisboa em 1975. É arquitecto, Licenciado pela Faculdade de Arquitectura da Universidade Técnica de Lisboa.


publicado por... liliana_12 às 14:17
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Chorão Ramalho no Funchal…

in Netmadeira
Arquitectura

Bruno Martins  |  26 de Outubro de 2009

Chorão Ramalho no Funchal

Edífício da Caixa de Previdência do Funchal, Arq. Chorão Ramalho (Fotografia: Bruno Martins)

(…) Depois do Funchal ter passado por dois grandes ciclos económicos; o do açúcar e o do vinho, a cidade assume uma nova referência turística internacional. (…) A cidade modernizava-se, apoiando-se no “Plano Geral de Melhoramento do Funchal”, do arquitecto Ventura Terra, elaborado em 1915; Rasgava-se a cidade com amplas Praças e Avenidas, Parques, Jardins e Bairros; embelezava-se com estátuas e edifícios da autoria de criadores de renome, tais como: Francisco Franco, Anjos Teixeira e Lagoa Henriques na escultura, Raul Lino, Edmundo Tavares, Óscar Niemeyer e Chorão Ramalho, na arquitectura.

J. G. Faria da Costa; “Estudo de Remodelação da Zona Marginal da Cidade do Funchal”, 1 de Agosto de 1945, Câmara Municipal do Funchal, cota 801, processo n.º 37.

Quem passa, muitas vezes não se apercebe. Talvez porque sempre esteve lá, ou talvez porque olhamos mas não vemos. Mas podemos habitar uma cidade uma vida inteira, discorrendo a sua história viva feita de praças, ruas, jardins e edifícios e nunca nos apercebermos da riqueza que nos rodeia. A tendência generalizada vai ao encontro da valorização da novidade feita de modismos e artificialismos. E no entanto, vivemos numa cidade que é rica na sua história, e marcada desde sempre por obras da maior valia, criadas por grandes autores como foram os casos enumeradas no texto de abertura. De todos, é incontornável falar de Chorão Ramalho, pela obra vasta que tem no Funchal, e pela importância e significado que ela representa para a cidade.

Nascido em 1914, no Fundão, e falecido em 2001, conclui o seu curso na Escola de Belas Artes do Porto em 1947, iniciando a actividade um pouco antes do primeiro congresso nacional de arquitectura, cujo resultado tem um impacto significativa na arquitectura moderna portuguesa que se viria a seguir.

Para escrever sobre Chorão Ramalho e a sua significativa obra no Funchal, é necessário recuar 50 anos, para a altura em que os modelos nacionalistas ainda imperavam na arquitectura. Contrariando esta linguagem vinculada politicamente ao Estado Novo, Chorão Ramalho desenha com liberdade, dando grande atenção aos aspectos funcionais, mas também formais, afirmando uma arquitectura depurada, que recusa o ornamento, o qual é entendido como artifício desnecessário. Esta atitude é suportada por uma seriedade ética e profissional irrepreensível, e um conhecimento das questões técnicas, de programa e de funcionamento.

O rigor no seu trabalho, o detalhe cuidado, a consistência de toda a sua obra elegem-no como um dos grandes arquitectos do seu tempo, e elevam a cidade do Funchal que enriquece o seu património através da obra que o arquitecto aqui executou.

Apesar de ter trabalhado sempre com programas diversificados, o seu trabalho fica marcado por um conjunto de valores que são comuns em toda a sua obra, e que a cidade do Funchal pode testemunhar através dos inúmeros edifícios que ficam para sempre, como a Assembleia Regional da Madeira, a Central Térmica do Funchal (mais conhecida como “Casa da Luz”) ou o conjunto da Caixa de Previdência do Funchal.

Esta ultima obra, composta por serviços de saúde e administrativos, e também habitação, desenvolve-se ao longo de uma torre de 14 pisos que assenta numa plataforma que marca uma transição suave com a malha envolvente.

Este edifício interessa particularmente, não só pelo seu valor enquanto conjunto arquitectónico, mas também pela discussão que a construção em altura ainda suscita. Não deixa de ser curioso lembrar que há 50 anos já se executassem edifícios que continuam sendo os mais altos que a cidade do Funchal tem para oferecer, e que hoje esta questão continue a ser tão polémica - sinal também do nosso conservadorismo relativamente a uma solução que foi utilizada sem complexos por Chorão Ramalho, nesta mesma cidade, há 5 décadas atrás.

Por aqui se percebe que a modernidade não se encontra no tempo mas na mentalidade. E Chorão Ramalho representa o melhor que estes momentos têm para oferecer: a obra que nos deixa – intemporal mas com vista para o futuro – é ainda hoje um símbolo de modernidade na cidade do Funchal.

Bruno Martins

Bruno Martins

Nasceu em Lisboa em 1975. É arquitecto, Licenciado pela Faculdade de Arquitectura da Universidade Técnica de Lisboa.


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Ilha da Madeira – Arquitectura num Contexto Dramático

in Netmadeira
Arquitectura

Bruno Martins  |  17 de Julho de 2009

Ilha da Madeira – Arquitectura num Contexto Dramático

Fotografia recolhida no livro "Arquitectura Popular da Madeira", pág. 323, Vítor Mestre, Editora Argumentum

Estas são sempre as casas.
E se vamos morrer nós mesmos,
espantamo-nos um pouco, e muito, com tais arquitectos
que não viram as correntes infindáveis
das rosas, ou das águas permanentes,
ou um sinal de eternidade espalhado nos corações
rápidos.
Que fizeram estes arquitectos destas casas, eles que vagabundearam
pelos muitos sentidos dos meses,
dizendo: aqui fica uma casa, aqui outra, aqui outra,
para que se faça uma ordem, uma duração,
uma beleza contra a força divina?

Herberto Hélder, Poesia Toda (1953-1980), Lisboa, Assírio e Alvim, 1981, p. 14

Embora seja uma pequena ilha num vasto oceano, a Madeira não deixa de espantar no dramatismo com que surge, emergindo de forma imponente, manifestando a sua formação vulcânica, afirmando a sua identidade com convicção.

Na orografia da ilha destaca-se um maciço central em linha de escarpa, mas também as arribas cortadas a pique de rocha basáltica de cor escura. A paisagem cruza-se entre o cenário infinito que nos é transmitido pelo mar, e o dramatismo destas escarpas que emergem de forma imponente. A natureza exuberante encontra-se em todos os lugares, o território assume contornos que tornam a humanização da paisagem num exercício de grande dificuldade, que desmotiva os menos optimistas à intervenção, mesmo à mais básica forma de actividade agrícola. Esta limitação não impediu o homem de se apropriar do território e de aqui construir ao longo de 5 séculos de história, páginas de conquistas sobre um relevo difícil.

A paisagem reflecte esta conquista, por vezes de forma ostensiva. Os poios não são mais do que socalcos de encostas escavados e agricultados, seguindo a tecnologia tradicional, onde a pedra da região se encontra emparelhada em muros de contenção. Assim se faz a agricultura, em várias tonalidades que apresentam os mais diversos cultivos agrícolas, constituindo-se como uma afirmação de vitória sobre a natureza inóspita, à custa de grande esforço.

Como é fácil entender, esta contrariedade determinou todo o registo edificado na ilha da Madeira. Podemos até dizer que moldou o próprio carácter de todo um povo, que foi esculpindo as montanhas para poder viver e habitar.

Da própria matéria de pedra basáltica usada nos poios agrícolas, até às formas mais sofisticadas de habitação, a construção na ilha da Madeira foi sendo feita num território tão diferente que os seus valores construtivos e formais teriam de ser necessariamente diferentes.

É verdade que alguns dos elementos usados na arquitectura popular portuguesa se mantêm, tais como os telhados de 2 e de 4 águas, cobertos a telha, ou os vulgares “tapa-sóis” de madeira. Mas as guarnições de pedra da região ou os muros de pedra emparelhada são registos originais de formas de edificação.

No entanto, aquilo que verdadeiramente distingue a moradia que é construída na Madeira encontra-se na forma como o seu programa se articula e cose com o lugar. Assiste-se por vezes a uma inversão completa dos seus valores. É comum a casa começar na garagem, uma espécie de mausoléu no topo da moradia, sob o qual se desenvolve o restante programa, num exercício vertical que acompanha o relevo dramático. A casa ganha uma expressão que só pode ser entendida vista de vários ângulos, no seu acesso superior, mas também à distância, num registo que interpreta a dificuldade do terreno sobre o qual se desenvolve, e que na repetição define os contornos da nossa paisagem.

Hoje, as técnicas adquiridas na construção permitem enfrentar o desafio da modernidade com confiança. Embora as dificuldades se mantenham, elas representam a arte e engenho das gerações passadas. A sua determinação confere-nos um conjunto de valores que podem ser aproveitados como registo edificado de um património muito interessante, mas sobretudo de um potencial enorme para que os jovens arquitectos possam pensar os seus projectos num cenário de grande beleza e dramatismo, tirando partido das características intrínsecas da orografia da Madeira.

Bruno Martins

Bruno Martins

Nasceu em Lisboa em 1975. É arquitecto, Licenciado pela Faculdade de Arquitectura da Universidade Técnica de Lisboa.


publicado por... liliana_12 às 14:12
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