Quinta-feira, 7 de Janeiro de 2010

Chorão Ramalho no Funchal…

in Netmadeira
Arquitectura

Bruno Martins  |  26 de Outubro de 2009

Chorão Ramalho no Funchal

Edífício da Caixa de Previdência do Funchal, Arq. Chorão Ramalho (Fotografia: Bruno Martins)

(…) Depois do Funchal ter passado por dois grandes ciclos económicos; o do açúcar e o do vinho, a cidade assume uma nova referência turística internacional. (…) A cidade modernizava-se, apoiando-se no “Plano Geral de Melhoramento do Funchal”, do arquitecto Ventura Terra, elaborado em 1915; Rasgava-se a cidade com amplas Praças e Avenidas, Parques, Jardins e Bairros; embelezava-se com estátuas e edifícios da autoria de criadores de renome, tais como: Francisco Franco, Anjos Teixeira e Lagoa Henriques na escultura, Raul Lino, Edmundo Tavares, Óscar Niemeyer e Chorão Ramalho, na arquitectura.

J. G. Faria da Costa; “Estudo de Remodelação da Zona Marginal da Cidade do Funchal”, 1 de Agosto de 1945, Câmara Municipal do Funchal, cota 801, processo n.º 37.

Quem passa, muitas vezes não se apercebe. Talvez porque sempre esteve lá, ou talvez porque olhamos mas não vemos. Mas podemos habitar uma cidade uma vida inteira, discorrendo a sua história viva feita de praças, ruas, jardins e edifícios e nunca nos apercebermos da riqueza que nos rodeia. A tendência generalizada vai ao encontro da valorização da novidade feita de modismos e artificialismos. E no entanto, vivemos numa cidade que é rica na sua história, e marcada desde sempre por obras da maior valia, criadas por grandes autores como foram os casos enumeradas no texto de abertura. De todos, é incontornável falar de Chorão Ramalho, pela obra vasta que tem no Funchal, e pela importância e significado que ela representa para a cidade.

Nascido em 1914, no Fundão, e falecido em 2001, conclui o seu curso na Escola de Belas Artes do Porto em 1947, iniciando a actividade um pouco antes do primeiro congresso nacional de arquitectura, cujo resultado tem um impacto significativa na arquitectura moderna portuguesa que se viria a seguir.

Para escrever sobre Chorão Ramalho e a sua significativa obra no Funchal, é necessário recuar 50 anos, para a altura em que os modelos nacionalistas ainda imperavam na arquitectura. Contrariando esta linguagem vinculada politicamente ao Estado Novo, Chorão Ramalho desenha com liberdade, dando grande atenção aos aspectos funcionais, mas também formais, afirmando uma arquitectura depurada, que recusa o ornamento, o qual é entendido como artifício desnecessário. Esta atitude é suportada por uma seriedade ética e profissional irrepreensível, e um conhecimento das questões técnicas, de programa e de funcionamento.

O rigor no seu trabalho, o detalhe cuidado, a consistência de toda a sua obra elegem-no como um dos grandes arquitectos do seu tempo, e elevam a cidade do Funchal que enriquece o seu património através da obra que o arquitecto aqui executou.

Apesar de ter trabalhado sempre com programas diversificados, o seu trabalho fica marcado por um conjunto de valores que são comuns em toda a sua obra, e que a cidade do Funchal pode testemunhar através dos inúmeros edifícios que ficam para sempre, como a Assembleia Regional da Madeira, a Central Térmica do Funchal (mais conhecida como “Casa da Luz”) ou o conjunto da Caixa de Previdência do Funchal.

Esta ultima obra, composta por serviços de saúde e administrativos, e também habitação, desenvolve-se ao longo de uma torre de 14 pisos que assenta numa plataforma que marca uma transição suave com a malha envolvente.

Este edifício interessa particularmente, não só pelo seu valor enquanto conjunto arquitectónico, mas também pela discussão que a construção em altura ainda suscita. Não deixa de ser curioso lembrar que há 50 anos já se executassem edifícios que continuam sendo os mais altos que a cidade do Funchal tem para oferecer, e que hoje esta questão continue a ser tão polémica - sinal também do nosso conservadorismo relativamente a uma solução que foi utilizada sem complexos por Chorão Ramalho, nesta mesma cidade, há 5 décadas atrás.

Por aqui se percebe que a modernidade não se encontra no tempo mas na mentalidade. E Chorão Ramalho representa o melhor que estes momentos têm para oferecer: a obra que nos deixa – intemporal mas com vista para o futuro – é ainda hoje um símbolo de modernidade na cidade do Funchal.

Bruno Martins

Bruno Martins

Nasceu em Lisboa em 1975. É arquitecto, Licenciado pela Faculdade de Arquitectura da Universidade Técnica de Lisboa.


publicado por... liliana_12 às 14:17
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